|
Otimista com a situação brasileira nos próximos anos, Rodolfo Spielmann, sócio de uma das líderes globais em consultoria de gestão, a Bain & Company, resume o quadro atual do País da seguinte maneira ao ser questionado sobre os setores mais promissores da economia nacional: "É muito difícil apostar contra um setor no Brasil. O setor financeiro está indo muito bem e tem muito espaço para crescer. O varejo vai muito bem, com aumento da renda e, por consequência, do consumo. A mineração, o petróleo, as commodities, vão muito bem, com a demanda em alta. O agronegócio vai muito bem, no setor de carnes, biocombustíveis", analisa, para em seguida pontuar. "O único que, talvez, possa ser um pouco mais arriscado são bens manufaturados específicos, como calçados e têxteis. Mas isso por conta da competitividade ante outros países asiáticos, por exemplo".
Tamanho otimismo se deve a uma conjunção de fatores que, segundo o executivo, vão desde a estabilidade brasileira, até o fato de o País ter saído rapidamente da crise. Por conta disso, ele acredita que o Brasil terá uma participação cada vez maior na economia mundial, assim como a Bain no Brasil ganhará um peso maior nos negócios do conglomerado no mundo. Hoje, a consultoria conta com 50 a 60 clientes e cerca de 160 consultores em terras brasileiras.
Para Spielmann, as grandes obras de infraestrutura que serão realizadas nos próximos anos para Copa do Mundo, Olimpíadas e para a extração de petróleo da camada pré-sal, serão as molas propulsoras para a continuidade do crescimento. Como resultado, haverá um grande desenvolvimento do sistema financeiro nacional e, no longo prazo, um fluxo de capitais significativo direcionado para o Brasil.
Tal movimento, de acordo com o executivo, se dará pela compra de bônus que as empresas e o governo emitirão para financiar as obras, assim como pela compra de ativos através de equitys, por exemplo. "Há muita liquidez no mercado internacional. Os fundos de investimento e de pensão têm bilhões e bilhões para investir e tais recursos também serão direcionados para o Brasil".
Não obstante, caso o pré-sal se confirme tão promissor quanto parece, Spielmann diz que a exportação de petróleo e derivados pode trazer um superávit significativo para a balança comercial brasileira, caso não haja nenhuma grande crise. O resultado desse quadro será, provavelmente, a valorização do real ante o dólar e as demais moedas. O que pode parecer uma tragédia para as empresas exportadoras, também gera oportunidades, segundo o sócio da Bain. "Há sempre os dois lados da moeda. Ao mesmo tempo que a valorização da moeda pode impactar os exportadores, cria-se uma série de oportunidades para a internacionalização de empresas por meio de aquisições, por exemplo, que são facilitadas com a moeda local valorizada", diz.
Questionado sobre a melhor maneira para se precaver de uma alta do real, Spielmann sugere planejamento e o desenho de diferentes cenários de cotação do dólar. "É preciso deixar claro que o mercado antecipa o que ocorrerá no futuro. Ao se saber que o fluxo de capital para o País deve subir daqui alguns anos, a moeda vai se valorizar bem antes. Por isso, é importante trabalhar com diferentes cenários e aproveitar um momento de dólar relativamente barato para, por exemplo, investir em máquinas e tecnologias que possam garantir uma competitividade maior no futuro", afirma.
Spielmann, que está há 17 anos na Bain e já trabalhou no Deutsche Bank na Alemanha e na Espanha, projeta uma expansão grande e sustentada do crédito no Brasil. Na pessoa física, segundo ele, o grande driver do crescimento será o crédito imobiliário. "Se compararmos o peso do financiamento imobiliário na carteira de pessoa física dos bancos de outros países, veremos que é o maior. No Brasil, hoje, representa apenas 3% ou 4% do PIB. Sem exageros, há espaço para o crédito imobiliário crescer 10 vezes no Brasil nos próximos anos", diz.
Na pessoa jurídica, na visão do executivo, também haverá crescimento, "porque há muitas pequenas e médias empresas que demandarão mais crédito para sustentar a expansão e que hoje não são tão alavancadas assim". Já no que diz respeito as grandes empresas, "além de tomar crédito junto aos bancos, também se financiarão via emissão de dívidas, como debêntures e bônus, nos Estados Unidos, na Europa". Aliás, é justamente esse dinheiro que deve ajudar a financiar a expansão das empresas e as obras de infraestrutura no País, visto que, segundo ele, a poupança doméstica deverá ser insuficiente para financiar ta crescimento.
|